| — | Beatriz Fagundes, “Quando eu virar pássaro livre da gaiola”. |
"Venham a mim todos vocês que estão cansados de carregar suas pesadas cargas, e eu lhes darei descanso." Mateus 11: 28
domingo, 8 de julho de 2012
“Não quero lágrimas em minha morte, nem cinzas do meu corpo voando do alto de uma montanha, como muitos sonham. Não quero que sintam pena de mim, nem quero pessoas que mal falavam comigo dizendo coisas ao meu respeito. Sempre andei discretamente para que isso jamais acontecesse. Todos que conheci sempre tiveram medo da morte, associavam-na com a escuridão e o ócio. Como de praxe, sou do contra. Acredito ser uma libertação, tudo ficará mais claro e menos parado. Nada de céu e inferno, o inferno é apenas uma projeção da cabeça dos perturbados, assassinos e descrentes que lá irão viver até que mereçam o contrário. Já me disseram o que acontece quando se morre. Já me explicaram como é a dimensão que as pessoas mortas se encontram, mas palavras não são suficientes para que uma imagem seja formada em minha cabeça. De curiosa que sou, resolvi ler mais sobre e confesso que não me espantei. Vícios permanecem, talentos não deixam de existir e tudo o que você aprendeu não será esquecido. Algo tão simples se torna o motivo do maior medo do mundo para a maioria. Mas confesso que me assustei com certas coisas, sou extremamente apegada às pessoas que aqui conheci e o fato de deixar de me comunicar diretamente com elas me entristece. Outra coisa que me assusta são os pedidos feitos aos mortos. Morrer não faz de você um anjo. Deve ser angustiante ser submetido a pedidos e não poder realizá-los. Quando eu morrer não quero ver pessoas achando que estou perdida. Não quero ninguém publicando coisas lindas em minhas redes sociais como publicam quando faço aniversário. Não quero ser invocada, estarei presente no momento que puder. Ficarei feliz em poder levitar e atravessar paredes, deve ser legal a sensação de se sentir como um pássaro solto da gaiola. Quando me tornar passarinho, não preciso de um caixão caro e bonito para o meu corpo “descansar em paz”, ele é a roupa da minha alma e quando roupas não cabem mais na gente, nós nos despedimos dela sem muita cerimônia. Quando eu sair da minha gaiola, só quero uma boa música nacional tocando pra quem estiver presente e uma faixa enorme dizendo que a morte não é o fim.”
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