quarta-feira, 4 de julho de 2012


“Não vou mentir, tive outras mulheres depois dela, levei mulheres para casa. E quando a babá Balbina ouvia nosso bulício, saía com você para a praia, mesmo à noitinha, às vezes debaixo de chuva. Bem que tentei buscar companhia noutra parte, cheguei a visitar prostíbulos, sem me animar. Moças que eu conhecia da garçonnière também me receberam em domicílio, e fracassei seguidamente. Porém meu desejo pela sua mãe permanecia vivo, sua lembrança me assaltava na cama, no banho, na escada, a cozinha eu até evitava. Então tratei de atrair mulheres para o âmbito dos meus desejos, mas nada era assim tão simples. Não me atrevia a deitar putas no leito conjugal, e entre as damas disponíveis, nem todas se sujeitavam a vestir as roupas da sua mãe. Mesmo as mais desenvoltas, quando circulavam no quarto vestidas de Matilde, em geral se revelavam um embuste, pareciam umas ladras. As que afinal se acertavam comigo, eu as despedia num táxi o quanto antes, na ilusão de que sua mãe reapareceria sem aviso. Como essas poucas não costumavam atender a um segundo apelo, cedo me tornei um tipo de ermitão. Fechava-me no quarto, fumava um cigarro atrás do outro, tinha por consolo folhear as revistas ilustradas que então entravam em grande voga. Era capaz de vislumbrar sua mãe em qualquer foto de mulher à meia distância, ora a caminhar na Avenida Central, ora deitada numa praia do Nordeste, ora a cavalgar nos pampas, e recostado na cama me satisfazia examinando tais figuras. A fim de arejar um pouco minha vida, até pensei em chamar amigos aos sábados, para beber um conhaque, falar de esportes, quem sabe reuni-los para um bridge à maneira do meu pai. Mas se nem nos tempos de estudante eu havia feito amigos, difícil seria agora que morava numa casa nada convidativa. A verdade é que sem sua mãe, o chalé outrora tão solar foi se deteriorando. E por mais que se erguessem edifícios à sua volta, era a sombra de Matilde que eu via sempre em cima dele. Você, não vi crescer direito, você crescia nas sombras da casa assombrada. Já entregue a magazines em cores, franceses, americanos, descuidei de acompanhá-la como nos primeiros tempos, logo que sua mãe nos deixou. Na época, eu frequentemente amanhecia inquieto, ia acordá-la para verificar o que restava de Matilde no seu rosto. Não era loucura minha, a Balbina também notava que cada dia você perdia mais um traço da mãe, e nesse passo já perdera todo o desenho original da boca, fora o negro dos olhos e a tez acastanhada. Era como se, na calada da noite, Matilde passasse para buscar suas coisas no rosto da filha, em vez dos vestidos no armário ou dos brincos na gaveta.”
Chico Buarque, Leite Derramado.

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