A gente se via todos os dias no colégio e era sempre normal. Por três anos foi normal, por mais que eu tenha sempre achado ela linda. Ela passava por mim, seu perfume exalava pelas minhas narinas, porém não me atravessava por dentro. Quem diria que uma pessoa que você conhece há anos, só iria te mostrar o seu encanto muito depois? Foi o que aconteceu. Dois anos e meio depois caímos na mesma sala e confesso que a nossa convivência cotidiana me fez sentir uma atração por ela. Por que diabos só agora? Tudo bem, não procurei entender. Gostava de cruzar olhares com ela, e isso vivia acontecendo pelo menos umas quinze vezes por dia. A gente ficava tímido um com o outro, mesmo depois de todo aquele tempo. Eu? Tímido? Desde quando? Pois é. E eu me iludia, é claro. Se ela também ficava assim comigo é porque alguma coisa tinha. Ah, se tinha… Foi crescendo. Foi passando de atração pra gostar, de gostar pra paixão. Putz, jura mesmo? Nem eu acreditava naquilo! Não podia ser! Mas era. Eu tinha que falar alguma coisa, não tinha? Ela me dava tanta esperança com aqueles olhares lindos, e até uma piscada de vez em quando rolava, acredita? Eu achava que tinha chances, é claro. Achava que podia dar certo e antes de qualquer coisa eu precisava ter certeza. A maldita insegurança não deixava com que eu fosse direto ao ponto. Eu? Inseguro? Logo eu, que sempre fui garotão convencido, sentindo insegurança por uma garota que eu vejo todos os dias e que sempre dá uma paradinha pra me observar? Ela estava mexendo com o meu psicológico, só podia ser isso. Mas tudo bem… Procurei me aproximar, procurei fazer com que ela me conhecesse do melhor jeito que eu conseguia ser. Porque, acima de tudo, do relógio e dos anos, a gente não se conhecia de verdade. Porque existia uma barreira que impedia a gente daquilo. Puxava papo, chamava nas redes sociais e… Maldita! Ela chegava a me deixar no vácuo às vezes, e nunca fazia questão de continuar o assunto. Existia coisa pior pra minha insegurança? Era péssimo. Quanto mais ela diminuísse as minhas expectativas, menos coragem eu teria pra desabafar. Mas tudo bem, insisti mais um pouco. Afinal, o jeito dela comigo, pelo menos pessoalmente, continuava o mesmo. Eu comecei a correr muito atrás, mas corria tanto, que uma hora tive que parar por achar que estava incomodando. O que ela tinha? Será que ela gostava de me deixar mesmo confuso? Porque em um dia ela me fazia acreditar, e no outro me fazia ter a certeza de que eu não passava de mais um moleque iludido. Eu já tava ficando meio louco com isso. Mas tudo bem, tudo bem, pra quê desistir agora? Eu não iria conseguir deixar de lado mesmo… O jeito era terminar o que eu tinha começado. Chegou um belo dia e enviei um texto daqueles bem lindos pra ela pelo computador. E ela leu… E antes que pudesse responder eu fingi que tinha mandado pra outra pessoa. Pra quê, meu Deus? Que infantilidade! Cadê as atitudes de homem que eu achava que tinha? Mas foi bom. Depois disso ela me infernizou infinitamente pra que eu dissesse pra quem eu estava mandando aquilo. Demonstrou interesse e deixou bem claro que não iria parar de me irritar até que eu contasse. “Era pra você mesmo” - falei, depois de horas de insistência. “To falando sério, pra quem era?” - ela não queria acreditar. “Era pra você mesmo, eu juro!”. Não foi fácil fazê-la acreditar, e foi isso que me deixou mais fodido da vida. Seria muito mais fácil se ela tivesse acreditado logo de cara. Mas ela não disse nada! Nem negou nada! Pra piorar ainda mais a minha situação. Mas tudo bem novamente. Eu fiquei naquele meio termo. Ela podia não ter dito nada, porque não correspondia. Mas ao mesmo tempo ela podia ter ficado em silêncio por ter achado que eu estava de brincadeira com a cara dela. Porque até aquele ponto ela demonstrou certa insegurança também. Maldita dúvida. Maldita insegurança. Maldito sentimento! O que eu faria depois dali? Não fiz nada. Só esperei… E espontaneamente a gente foi se aproximando. Depois que a vergonha passou, é claro. Viramos grandes amigos. Só não digo melhores amigos porque eu sabia que ela tinha outros mais próximos. Saíamos com a mesma turma, fazíamos parte da mesma galera. O que ajudava mais ainda… Mas nada acontecia e minha ansiedade já estava cansada, entre aspas, de esperar. Naquele ponto eu já achava que não ia dar mais em nada e confesso: fiquei com outras garotas. Não sabia em que ponto aquilo iria ajudar, talvez só atrapalhasse nosso caminho, e talvez tenha atrapalhado mesmo. Porém era a minha maneira de tentar esquecer o que era inesquecível. Não deu certo. E de tanto tentar com que eu esquecesse mesmo, percebi que não daria. Percebi que se era ela que eu queria, era nela que eu tinha que investir! E não era? Tomei coragem, meses depois, e mandei outro texto. Mas sem rodeios e infantilidades dessa vez. Peguei, contei tudo e pronto! A esse ponto talvez ela tivesse até achado que eu tinha esquecido ela de verdade. Fiz questão de lembrar que “Anjo, ainda amo você.”. E acredita que a filha da puta me deixou no meio termo de novo? O que ela tinha pra me olhar tanto, pra demonstrar tanta coisa estranha naquele ponto, e ficar nisso? Foi a situação mais sem graça do mundo e eu a fiz prometer que não pararia de falar comigo por causa daquilo. E ela não parou mesmo. No dia seguinte me chamou - junto com o resto das pessoas, é claro - pra ir ver um filme na casa dela. Era o sinal mais suspeito que ela podia me dar. Fala sério, se você não tivesse a fim de alguém que estivesse de você, você o convidaria pra ir ver um filminho de noite na sua casa, na ausência dos seus pais? Claro que não! Nenhuma alma no mínimo inteligente faria isso, se não estivesse mesmo a fim. Era a minha chance, putz! Mas não foi. Não foi de novo. Voltei pra casa mais uma vez com aquele pensamento de “deixa pra próxima…”. Nos falamos pouco nas férias, e quando as aulas voltaram, estávamos incrivelmente mais próximos novamente. Eu deveria ser impressionantemente insistente pra tentar da terceira vez? Por mim eu já tinha jogado ela contra a parede e roubado um beijo faz tempo, mas não o fazia por medo de um tapa na cara acompanhado de uma inimizade eterna. Eu tinha que ter certeza, primeiro. Ela colocou aquela insegurança em mim, eu não tinha culpa! Mas eu, burro, fui tentar esquecer de novo. Fiquei com outra e dessa vez ela acompanhou tudo! E não só acompanhou, ela fez questão de demonstrar que sentia ciúmes, e quando ela me pediu pra que eu terminasse aquela relação, eu fui correndo, iludido, partir o coração de uma garota só por causa dela. Já estava tudo bem claro. Amizade não é assim, não podia ser amizade. Ela sentia algo mais por mim, e cada olhar dela me dizia aquilo. E depois dessas crises de ciúmes então, tive mais certeza ainda. E depois que terminei com a outra garota pra tentar a terceira vez com ela, eu disse olhando no olho. Ela não disse nada. Ela ficou em um silêncio constrangedor que dizia “Como é que eu faço pra dizer que eu também?”. O olhar dela brilhava e ela tentava disfarçar. Por que? Por que ela não me dizia logo? Orgulho? Medo? E por que eu travava e não tomava uma atitude mais significativa, tipo aquela que eu falei de jogá-la de vez contra a parede? Por que tinha que ser tão complicado? Por que a gente não podia simplesmente se abrir perfeitamente um com o outro e fazer tudo dar certo? Porque sentimento das duas partes tinha. Ah, se tinha… Mas aquilo doía tanto. Era a certeza misturada com a dúvida, a segurança disso tudo que eu to falando misturada com a insegurança. Era a tranquilidade de saber que os olhos dela assumiam o sentimento misturada com a tortura de saber uma maneira de fazê-la admitir aquilo. Se eu contasse aqui todas as lembranças que a gente tinha junto, todo mundo diria que a nossa história é linda. E ninguém acreditaria em como alguma coisa não tinha acontecido até agora. Nem eu acredito… Por que os amores mais verdadeiros levam anos pra acontecer? Por que o tempo tem que arranjar uma maneira, sempre, de atrasar ou destruir tudo? E entre atrasar e destruir é que está o problema. E se, um dia, ao invés de atrasar-nos, o tempo decida acabar com todas as chances. É esse o meu medo. É esse o nosso medo. Medo de que as melhores coisas sejam planejadas, mas que nunca aconteçam. Que insegurança filha da puta.”
| — | Para amores impossíveis: Tempo. — João Pedro Bueno |
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