terça-feira, 23 de outubro de 2012

Eu não sabia ler. Eu não sabia ler seus olhos, não sabia ler suas mãos, não sabia ler teu corpo. Eu me senti um completo analfabeto em relação à você. Não sabia como fazer você sorrir, a hora de te puxar pra perto e dizer que tava tudo bem, brincar com seus dedos quando você estivesse nervosa, simplesmente não sabia. Você foi, e ainda é, o livro mais bem escrito que achei na prateleira e foi isso que me prendeu tanto a ti, foram as tuas palavras difíceis e teus enigmas entre cada linha que me deixaram assim, instável, inútil. Era como se eu precisasse de um dicionário diferente pra cada ato e palavra sua e ainda assim nenhum deles iriam conseguir explicar com precisão. Você era um amontoado de ideias distintas e desconexas, mas ainda assim fingia te entender. Você me deixou tão analfabeto a ponto de não conseguir ler mais ninguém. Nem a mim mesmo.
Pedro Cabral, DESESPERANÇOSO

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